Encontro Nacional 15-16 Março 2025
Luís Marques Mendes, ex-secretário de Estado da Comunicação Social e impulsionador do Estatuto da Imprensa Regional
Decorreu, nos dias 15 e 16 de março, no Centro de Juventude de Braga, o Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional, Impressa e Digital, que debateu temas como ‘A contribuição para a construção do Portugal democrático’ e ‘A revitalização e sustentabilidade’. Estiveram presentes cerca de 200 representantes da imprensa local e regional, vindos de todos os distritos de Portugal Continental e da Região Autónoma dos Açores.
No primeiro painel da tarde do dia 16 de março, Luís Marques Mendes, ex-secretário de Estado da Comunicação Social e impulsionador do Estatuto da Imprensa Regional, falou sobre o tema ‘A Imprensa Local e Regional: o caminho desde a sua afirmação como imprensa de proximidade essencial ao Portugal Democrático, à realidade de hoje, com um deserto de notícias em mais de 60 concelhos e mais de metade sem jornal impresso’.
Fique com algumas das declarações do candidato à Presidência da República:
«A minha ligação com a imprensa regional começou cedo, nos meus vinte e poucos anos, antes ainda de estar na política nacional e muito antes de entrar no Parlamento ou no Governo. Na minha terra trabalhei durante alguns anos ligado a um jornal regional e fiquei com uma sensibilidade especial para esta temática, porque apercebi-me de várias coisas. Primeiro, trabalhar num jornal local ou regional é sobretudo um exemplo de carolice e dedicação. Não quer dizer que não haja profissionalismo, capacidade e competência, claro que há. Mas é preciso, face às dificuldades que então existiam, e acredito que hoje não seja radicalmente diferente, é preciso muito espírito de dedicação, de sacrifício. Uma pessoa, de um modo geral, que trabalha na imprensa regional, tem várias outras atividades e tem que conciliar aquilo que, às vezes, é difícil de conciliar. Mas tem ao fim do dia ou ao fim de cada semana uma recompensa. Uma recompensa que é o produto que sai para as pessoas: o jornal que é lido pelos cidadãos; as peças que se escrevem, que depois as pessoas comentam com agrado; as notícias que se dão e que as pessoas veem com surpresa como novidade. E, portanto, ficou desse tempo uma sensibilidade enorme para a imprensa local e para a imprensa regional.»
«As razões que me levaram, em 1985, a dedicar-me à imprensa regional são razões que se mantêm válidas e atuais nos dias de hoje. A imprensa regional é uma imprensa diferente, não se trata de ser melhor ou pior que as outras. Não, é diferente, e a democracia deve apoiar o direito à diferença. Onde é que é diferente? A imprensa regional chega onde normalmente a imprensa nacional não chega. Já era assim e é cada vez mais assim. É uma cultura de proximidade com as pessoas e essa cultura de proximidade numa freguesia ou num conselho tem uma importância capital, porque resulta em notícias, comentários e abordagens de questões locais e regionais que, normalmente, a imprensa nacional não trata ou aborda. Depois, porque é a diferença também na forma de ser e de estar. Tudo o que tem que ver com questões de natureza mais próxima das pessoas, mais locais, regionais e intimistas, exigem um trabalho diferente daquele trabalho que é feito na imprensa nacional.»
«É importante não esquecer a diáspora, as comunidades portuguesas dispersas pelo mundo. Portugal não é um sítio, é uma nação. Em cada parte do mundo onde vive ou trabalha um português, vive-se e sente-se Portugal. Qualquer português no estrangeiro, e nós conhecemos isso por familiares ou por amigos, dá uma atenção enorme a quando recebe, por exemplo, o jornal da sua terra. Porque para cada português lá fora, na Alemanha, na Suíça, na Venezuela, na África do Sul, seja onde for, a oportunidade ao abrir o seu jornal local é a oportunidade de viverem os pequenos episódios da sua terra, as pequenas notícias da sua comunidade. Cada português lá fora, distante, que só de 8 em 8 dias ou de 15 em 15 dias pode ter, por essa via, algumas notícias, esse é um momento extraordinário de entusiasmo, de portuguesismo, de nacionalismo, de estima e de ligação a Portugal. Isso não tem preço. Diz-se que há outra imprensa nacional. Há, com certeza, mas não há a imprensa com a cultura de proximidade que tem a imprensa regional.»
«Sou um privilegiado pela oportunidade de poder falar convosco e, sobretudo, pela oportunidade de a cada um de vós, seja em que região do país for, que estão ligados à imprensa regional, devo-vos dizer que tenho por todas as pessoas, homens e mulheres, jovens ou mais velhos, que se dedicam à imprensa regional, um carinho especialíssimo, que vivi na pele isto mesmo, que senti isto mesmo. Porque sei que se não houver espírito de carolice, isto não se faz, e é muito importante que se faça, porque senão fica um vazio. Hoje sei pelas estatísticas que há algumas dezenas de concelhos em Portugal onde ou não chega, ou raramente chega um jornal, o que torna mais importante a afirmação da imprensa regional. A imprensa é vital para que a democracia tenha alma, para que a democracia tenha informação, esclarecimento e dignidade. Não estou a dizer que a democracia vai acabar por causa de haver algumas terras menos abastecidas por jornais. Não, a democracia não vai acabar, mas perde qualidade, e se perde qualidade, as pessoas ficam um pouco mais divorciadas da democracia.»
«O que a imprensa regional tem que fazer permanentemente é acentuar a sua diferença. A democracia é isto mesmo: o direito à diferença. É o direito de pensarmos uns e outros de forma diferente e devemos respeitarmo-nos uns aos outros. É o direito de termos uma informação que seja diferente. Há uma que é mais macro, há outra que é mais micro, mas ambas são importantes. É esta diferença que permite, de facto, acrescentar e não reduzir, que permite complementar e não estar apenas a somar o que já está somado.»
«Acho, sinceramente, que as autarquias locais podiam e deviam dar um apoio objetivo, transparente, mais efetivo e mais afirmativo do que hoje em dia fazem em relação à imprensa regional. A morte de um jornal regional é um bocadinho a morte de uma parte da democracia. É menos concorrência, é menos informação, é menos direito à diferença. Agora, haverá autarquias que o fazem, autarquias que não o fazem, mas esta pedagogia deve ser feita.»
«Em 1985, chego ao Governo e tenho a minha primeira experiência governativa. Tinha 28 anos e foi-me atribuída a pasta da Secretaria de Estado da Comunicação Social. Obviamente que os grandes dossiês que tinha na altura entre mãos eram outros: o início do processo de privatização da imprensa nacional, o desafio de criar a primeira lei de rádios que permitisse legalizar as chamadas rádios locais, o processo de fusão das agências de notícias. Estes eram, portanto, os grandes dossiês, aqueles que moviam as grandes atenções políticas e mediáticas e davam origem a inúmeros debates parlamentares. Agora, achei por bem acrescentar à agenda tradicional o tema da imprensa regional, devo dizer até que com surpresa para as pessoas que trabalhavam no meu gabinete. As pessoas do meu gabinete achavam um pouco estranho, porque não conheciam esta imprensa, ou se conheciam, não atribuíam grande importância e, por isso, não compreendiam sobretudo o grande enfoque que queria colocar na imprensa regional. Surpresa maior surgiu quando dei orientações e criei uma pequenina equipa para preparar um projeto de estatuto da imprensa regional. O primeiro estatuto que da imprensa regional é desse meu tempo e da minha responsabilidade. Era absolutamente essencial para dar o ponto de partida para uma nova era, um novo ciclo na forma de abordagem da imprensa regional.»
«Um outro grande momento foi a criação de um conjunto de incentivos de natureza financeira para a modernização e a reconversão tecnológica da imprensa regional. E porquê? Porque achei também que não chega ter um estatuto, porque senão corre-se o risco de este ser apenas uma espécie de letra-morta, um papel, uma formalidade. O importante era justamente o contrário, era tratar do futuro da imprensa regional, que precisava de ser modernizada e tecnologicamente mais avançada. Havia, na altura, um conjunto de instrumentos para o fazer, mas precisavam de surgir a montante os instrumentos financeiros. O porte pago que já existia, mas que existia em más circunstâncias e condições, também era preciso ser reformulado e reformado.»