Jorge Pinto (Livre): “A grande aposta da comunicação social local e regional poderia ser o papel”

Encontro Nacional 15-16 Março 2025

Jorge Pinto, deputado à Assembleia da República pelo Livre

Decorreu, nos dias 15 e 16 de março, no Centro de Juventude de Braga, o Encontro Nacional de Imprensa Local e Regional, Impressa e Digital, que debateu temas como ‘A contribuição para a construção do Portugal democrático’ e ‘A revitalização e sustentabilidade’. Estiveram presentes cerca de 200 representantes da imprensa local e regional, vindos de todos os distritos de Portugal Continental e da Região Autónoma dos Açores.

No primeiro painel de domingo, dia 16 de março, foi dinamizado um debate entre os partidos PSD, PS, PCP, Livre e PAN em torno do tema ‘A visão do Parlamento sobre a Comunicação Social Local e Regional’. No final do debate, moderado por Álvaro Neto, da Gazeta Paços de Ferreira, os representantes de cada partido responderam a perguntas do público, que foram colocadas por escrito.

Fique com algumas das declarações de Jorge Pinto, deputado à Assembleia da República pelo Livre:

 

Importância da imprensa local e regional, nomeadamente para os jovens:

«O primeiríssimo artigo que publiquei foi no ‘Jornal de Amarante’, o único jornal local que ainda vai resistindo de forma mais ou menos permanente na cidade. Os jornais locais e a comunicação local é muitas vezes a primeira porta aberta a jovens como eu, na altura com 14 ou 15 anos, poderem expressar as suas opiniões em relação àquilo que conhecem melhor, à sua cidade, à sua freguesia, àquilo que veem e vivem no dia a dia. Isso por si só já seria uma função mais do que suficiente para justificar a importância da comunicação social local, mas há muito mais. Desde logo o escrutínio político, e sei bem a dificuldade de fazer esse escrutínio político, se já é difícil nos grandes órgãos de comunicação social, imaginem nos órgãos de comunicação social locais e regionais, muitas vezes muito dependentes de quem está à frente das autarquias. Mas sei que esse trabalho é feito e é essencial.»

 

A importância de preservar o arquivo histórico da imprensa local e regional:

«É de grande importância preservar o arquivo histórico dos jornais regionais e locais. Estamos a falar, muitas vezes, de jornais centenários, ainda agora estava a falar aqui com um responsável de um jornal centenário. Preservar este arquivo histórico é preservar a nossa memória coletiva, imaginem o custo temporal, pessoal e o custo financeiro de fazer este trabalho. É importante que o Estado consiga assegurar e dê apoio efetivo, técnico e financeiro para preservar os arquivos históricos da comunicação social locais. Depois, e fazendo um bocadinho, perdoem-me a palavra, de propaganda política, uma proposta que o Livre apresentou, que foi aprovada e que só precisa de ser agora executada, que é a publicação em portaria da tabela que fixa os preços das decisões autárquicas nos órgãos de comunicação social. Isto foi aprovado, agora falta basicamente que os preços sejam acordados para que a portaria possa ser aplicada.»

 

A importância do papel:

«Pegando um bocadinho naquele belíssimo slogan da TSF: ‘Ir até ao fim do mundo, ir até ao fim da rua’. Se é verdade que o digital nos permite muito facilmente ir até ao fim do mundo, acho que o papel é aquilo que nos fará ir ao fim da rua. Acredito verdadeiramente que a grande aposta dos jornais locais deve ser o papel. Devem conseguir criar parcerias com as escolas, com os lares, com todo o tecido social e escolar das localidades onde os jornais tenham interesse para que haja financiamento alternativo. Em particular, no caso das escolas vai fomentar o prazer pelo tátil, que se está a perder, vai fomentar hábitos de leitura que, se calhar, são complementares aos hábitos de leitura literária propriamente ditas. Se na disciplina de português, de cidadania, em qualquer disciplina, no clube de leitura da escola, o jornal local é discutido semanalmente ou mensalmente, dependendo da periodicidade, vai trazer novos hábitos para os meninos e para as meninas. E por fim, porque vai fazer com que se crie uma certa proximidade, paixão e até consciência crítica em relação ao nosso local. Atualmente, a maior parte das crianças estará nas redes sociais, tem acesso fácil a tudo o que está a acontecer do outro lado do mundo, onde quer que seja, e se calhar acaba por conhecer muito melhor essa realidade, porque é aquela com a qual é confrontado diariamente, do que a realidade da sua freguesia. Acho que a comunicação social local tem aqui uma porta de entrada muito importante. Não digo, com isto, que se deve abdicar da aposta no digital, mas acho que a grande aposta da comunicação social poderia ser o papel.»

 

Propostas e considerações:

«O Livre acredita muito no papel do escrutínio da comunicação social e teme que a posse ou a influência desmesurada que grandes grupos e pessoas muito ricas possam ter na comunicação social tenha um impacto real naquilo que é o escrutínio político. Se olharmos para o top 10 das pessoas mais ricas do mundo, praticamente todas elas detêm ou uma rede de comunicação social, ou canais de televisão, ou jornais. Aquilo que o Livre propôs, e que me parece ser muito importante, uma pequena gota de água, mas importante para combater isto em Portugal, é que os órgãos de comunicação social sem fins lucrativos possam ser considerados entidades de utilidade pública. Isto tem muitos benefícios, desde logo, a consignação do IRS, que poderia passar a ser feita para esses órgãos. Esta proposta foi, infelizmente, chumbada, mas voltaremos a ela.»

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